Alaçatı — ruelas de pedra, vento e vinho da costa do Mar Egeu
Alaçatı é, sem dúvida, o recanto mais fotogénico da península de Çeşme, na província de Izmir. É aqui que o vento Meltem invade as ruelas estreitas, agitando as cortinas dos hotéis boutique, enquanto as casas gregas de pedra, com persianas em tons de lavanda e azul-celeste, se alinham ao longo da calçada como se alguém tivesse deliberadamente montado um cenário para um filme. Hoje, Alaçatı é uma pequena povoação com 10 386 habitantes (censo de 2022), mas foi precisamente esta aldeia que se tornou o símbolo de um Egeu reinventado: um lugar onde as mansões otomanas foram transformadas em bares de vinho, onde as mulheres colhem ervas silvestres para o festival de abril e, na baía de Agrilia, os melhores windsurfistas do mundo aproveitam o vento sul constante. Neste guia — história, arquitetura, lendas e conselhos práticos para que a viagem a Alaçatı não seja apenas mais um «ponto turístico», mas uma verdadeira imersão na cultura da costa do Egeu.
História e origem de Alaçatı
A história de Alaçatı é uma história de constantes mudanças de nomes e povos. Na Antiguidade, a baía à qual o atual povoado está adjacente chamava-se Agrilia (Αγριλιά) — «oliveira selvagem»: aqui existia um importante porto, através do qual Esmirna exportava o seu azeite até à Segunda Guerra Mundial. Os registos fiscais otomanos de 1525 já registam a povoação vizinha com o nome turco Alacat ou Alacaat, derivado de «alaca at» — «cavalo malhado».
Existem várias versões relacionadas com a origem do nome. Segundo uma delas, o nome deriva do grego αλάτι («sal»): na península extraía-se sal marinho há séculos e, mesmo na época otomana, existia um imposto especial, o «alatsatikos», cobrado às salinas. Segundo outra lenda, o governante local andava a cavalo num cavalo malhado, e os transeuntes apelidaram-no de «Alacaatlı» — «homem com cavalo malhado»; com o tempo, o nome ficou associado à própria aldeia. A terceira versão, a mais poética, explica o nome como «Ala çatı» — «telhado cintilante»: ventos fortes levantavam a roupa a secar e levavam-na para os telhados vizinhos, pintando-os com manchas coloridas.
A aldeia atual formou-se no século XVII, quando o agá local, Hadji Memish Agá, convidou para cá colonos gregos da ilha de Chios e das ilhas vizinhas, para que estes drenassem os pântanos costeiros. Em 1895, dos 13 845 habitantes, apenas 132 eram muçulmanos — o restante da população era composto por gregos, a quem os locais chamavam de «alacatianos». Em 1904, o recenseamento registou cerca de 15 000 habitantes, e Alacata (como se chamava na época) era um próspero centro vitícola.
O século XX foi cruel para a aldeia. Segundo dados da Comissão Suprema de Esmirna, em maio de 1914, 14 000 gregos foram expulsos à força de Alacata. Após as Guerras Balcânicas, substituíram-nos refugiados muçulmanos do Kosovo, da Albânia e da Macedónia grega. Após a derrota da Grécia na guerra greco-turca e a assinatura do Tratado de Lausanne em 1923, ocorreu a troca definitiva de população: os muçulmanos de Creta, da Trácia, da Macedónia e das ilhas do Dodecaneso ocuparam as casas de pedra abandonadas. Desde 1928, a localidade tem o seu nome atual — Alaçatı.
Arquitetura e pontos de interesse
Em 2005, Alaçatı recebeu o estatuto de zona histórica protegida, e foi precisamente isso que salvou a vila da construção de edifícios de betão padronizados. Aqui preservaram-se várias centenas de casas de pedra otomano-gregas do século XIX, e as novas construções têm de imitar as formas tradicionais. Um passeio pelo centro demora entre duas horas e um dia inteiro — dependendo da frequência com que se sentar nos cafés com esplanada.
Kemalpaşa e Hadjimemish — as ruas principais
Duas ruas paralelas, a Kemalpaşa Caddesi e a Hacı Memiş Caddesi, formam o coração da vila. É aqui que se concentram as boutiques, os bares de vinhos, as lojas de antiguidades e os restaurantes, que colocam as suas mesas diretamente no pavimento. À noite, as ruas enchem-se da boémia de Istambul, de fotógrafos italianos e de famílias locais, de tal forma que o trânsito se transforma num carnaval lento.
Casas de pedra com «cumba»
Uma característica distintiva das casas que pertenceram aos gregos otomanos é a varanda fechada em saliente, em turco «cumba». Ela projeta-se sobre a rua, na maioria das vezes com três janelas, e está quase sempre pintada em tons pastel de lilás ou azul-claro. O rés-do-chão é revestido com pedra bruta cor de arenito, o primeiro andar é rebocado, e as persianas e portas conferem ao vilarejo a sua paleta de cores característica. O contraste entre as paredes brancas, os detalhes coloridos e as buganvílias roxas é o principal motivo visual de todos os cartões postais de Alaçatı.
Moinhos de vento (Yel Değirmenleri)
Na colina acima da vila erguem-se vários moinhos de vento de pedra branca do século XIX. Parte deles foi restaurada, parte são ruínas impressionantes. No passado, moíam o cereais trazido por mar, mas hoje servem como o melhor miradouro: daqui avista-se toda a Alacati, a marina e a costa recortada da península de Çeşme.
Porto de Alaçatı e marina
A poucos quilómetros do centro histórico, na antiga baía de Agrilia, encontra-se a marina Port Alaçatı, projetada pelo arquiteto francês François Spoerri e pelo seu filho Yves Spoerri — os mesmos autores que criaram Port Grimaud na Côte d'Azur. O resultado é inconfundível: pequenas moradias geminadas brancas, canais, ancoradouros para iates e a sensação de uma «cidade mediterrânica construída do zero». Para aqui chegam iates de todo o mar Egeu e abrem-se restaurantes com vista para a enseada.
A baía do windsurf
Essa mesma baía, com um fundo raso e uniforme, transformou Alaçatı num dos melhores resorts de windsurf do mundo. O vento sopra 330 dias por ano, o vento sul gera ondas para o freestyle e as águas rasas tornam o local seguro para iniciantes. Os profissionais da PWA chamam a Alaçatı de «capital mundial do slalom», e todos os anos realiza-se aqui uma etapa do circuito mundial. As escolas disponibilizam equipamento para windsurf, kitesurf, canoagem e SUP.
Fatos interessantes e lendas
- Em 2010, o jornal The New York Times colocou Alaçatı no 8.º lugar da lista de locais a visitar obrigatoriamente nesse ano — após o que o fluxo de turistas da Europa e da Ásia cresceu exponencialmente.
- Em 2004, a apresentadora de televisão japonesa Nana Eikura realizou um documentário sobre a vila e, desde então, Alaçatı tornou-se popular entre os viajantes japoneses e coreanos, o que é raro para as pequenas cidades do Egeu.
- Todos os anos, em abril, realiza-se em Alaçatı o festival de ervas Alaçatı Ot Festivali: os habitantes locais colhem dezenas de espécies de ervas silvestres do Egeu, e os chefs competem com pratos à base de ingredientes naturais e «receitas esquecidas».
- Desde 2017, realiza-se aqui também o Kaybolan Lezzetler Festivali — «Festival dos Sabores em Desaparecimento», dedicado à preservação de receitas antigas que estão gradualmente a desaparecer da cozinha familiar.
- O escritor Mehmet Culum, após viajar pela região, escreveu o romance «Alaçatılı» — sobre o entrelaçamento dos destinos de gregos e turcos nestas casas de pedra; para o leitor turco, trata-se de uma espécie de «Odessa Silenciosa» local.
- Na localidade de Somerville, perto de Boston, ainda existe o bairro de Small Alatsata, fundado por refugiados de Alaçata no início do século XX — um caso raro em que uma aldeia do Egeu deu origem a um «novo povoado» da diáspora nos EUA.
Como chegar
Alacati fica a 76 km do centro de Izmir e a apenas 8,6 km da cidade de Çeşme. O aeroporto mais próximo é o Izmir Adnan Menderes (ADB), para onde há voos diretos a partir de Istambul, Ancara e muitas capitais europeias. Do aeroporto até Alaçatı são cerca de 85 km, ou 1 hora de carro pela autoestrada O-32 Izmir-Çeşme.
A opção mais conveniente é alugar um carro diretamente no aeroporto: as distâncias na península de Çeşme são curtas, e o carro permitirá visitar Çeşme, Yalıçık e as praias selvagens. Se não tiver carro, existem duas opções de transporte público: os autocarros da empresa Kamil Koç e de outras transportadoras, que partem da estação rodoviária Otogar, em Istambul, com destino a Çeşme (viagem noturna de 10 a 12 horas), ou a combinação «voo até Izmir + autocarro». Da estação rodoviária de Izmir ÜÇKUYULAR para Çeşme há autocarros diretos a cada 30–40 minutos, a viagem dura cerca de 1 hora e 15 minutos e o bilhete é barato. Da estação rodoviária de Çeşme para Alaçatı há dolmuşes a cada 15–20 minutos, a viagem demora menos de 10 minutos.
A entrada de carros no centro histórico de Alaçatı é parcialmente restrita — deixe o carro num dos parques de estacionamento pagos na periferia e mergulhe no labirinto de ruelas a pé.
Dicas para o viajante
A melhor altura para viajar é do final de abril a junho e de setembro até meados de outubro. Na primavera, o festival das ervas de abril está em pleno andamento e a vila ainda não está sobrelotada; no outono, a água do mar continua quente e as multidões diminuem. Julho e agosto são o pico da época: os preços dos hotéis duplicam ou triplicam, e à noite é impossível passar pelas ruas de calçada. O inverno é a época dos cafés tranquilos, do vento e da chuva, quando a vila pertence aos locais.
Não se esqueça de reservar o hotel com antecedência: em Alaçatı praticamente não há grandes hotéis, apenas projetos boutique nas mesmas mansões de pedra, e na época alta esgotam-se um mês antes. Ao escolher um quarto, preste atenção à localização — viver no centro é romântico, mas barulhento até altas horas da noite por causa dos bares. As opções mais tranquilas ficam nos arredores da zona histórica.
Não deixe de experimentar a cozinha local: compota de kumquat ao pequeno-almoço, saladas de ervas do Egeu (ot kavurması), marisco em pequenos restaurantes junto à marina e sobremesas à base de mastique da árvore de mastique (Pistacia lentiscus), que na península de Çeşme está a ser recuperada desde 2008 no âmbito de um projeto da Fundação TEMA — até 2011, foram plantadas mais de 3 000 mudas. Gelado de mastique, café de mastique e pó de mastique — o cartão de visita da península.
Para os praticantes de windsurf, o melhor mês é julho, quando o vento é estável; para os principiantes, é melhor visitar em maio e setembro, quando o vento é mais suave. Combine a viagem com uma visita a Çeşme (a fortaleza genovesa do século XIV e as fontes termais de Yalıcı), bem como às aldeias de Ildırı e Şirince. Se quiser um pouco de privacidade — alugue um carro e dirija-se à costa norte da península, às baías selvagens de Altinkum e Çiftlikkoy. Alacati é maravilhosa não só pelas suas ruelas dignas de um cartão postal, mas também pelo facto de, em dez minutos de carro, se encontrar numa paisagem completamente diferente — entre vinhas, oliveiras e o mar Egeu imenso — e é precisamente esta possibilidade de combinar o ritmo de uma vila na moda com a tranquilidade do verdadeiro Egeu que a torna um dos melhores destinos da costa turca.